Poltergeist
Fenômenos anômalos da consciência e um guarda-roupa.
Eu estava deitada na cama lendo, quando ouvi uma batida na porta do guarda-roupa. Coisa mínima, como se um vento leve a tivesse chacoalhado de dentro para fora. Parei a leitura. Olhei para a porta. Nada.
Voltei para a página. A cronista fazia seu terceiro teste de COVID e eu me lembrava de como era viver trancada em casa sem perspectivas de voltar à vida normal. Que vida normal? Haveria normalidade depois de dois anos? Até agora não sei responder. A porta chacoalhou de novo. Imaginei se a pilha de camisetas tinha se desequilibrado lá dentro e, de alguma forma, forçava a porta tentando uma saída.
Não é incomum acontecer esse tipo de coisa aqui em casa. O box, por exemplo, vive estalando, assim como a TV. Dizem que pode ser coisa de dilatação, por causa do calor os materiais se expandem e aí estalam. Mas a porta do guarda-roupa se mexer, aí já é outra história.
“Vocês sabem a diferença entre casa mal-assombrada e poltergeist?”, o professor perguntou.
Nossas cabeças balançaram afirmativamente, cada uma no seu quadradinho do Zoom. O professor explicou com sua voz grave:
“Casa mal-assombrada é um fenômeno local: as gerações passam por ali e sentem coisas estranhas. Vozes, portas batendo.”
Fez uma pausa dramática antes de continuar:
“O poltergeist é um fenômeno psíquico, está relacionado a uma pessoa e não ao local, ainda que se manifeste com portas batendo e armários se abrindo e expelindo as coisas todas de dentro.”
Armários se abrindo?
Seria um poltergeist fazendo meu guarda-roupa sacudir a porta?
Alguns anos atrás, algo semelhante tinha acontecido. Eu dormia alguns dias da semana na casa da minha avó. Certa noite, eu estava deitada na cama já me preparando para dormir, quando a porta do guarda-roupa começou a sacudir. Dei um pulo da cama, o coração acelerado, e pensei em chamar: “Vó, pelo amor de deus venha aqui que tem alguma coisa no guarda-roupa!” Mas não chamei. O barulho parou um instante, mas não o suficiente para me acalmar, pois em seguida recomeçou mais forte, mais violento. Parecia que algo tentava abrir a porta de correr, arranhando a madeira por dentro. Meus cabelos arrepiaram e meu estômago afundou. Fiquei paralisada uns segundos antes de tomar coragem. Então, com meio corpo pra fora do quarto, empurrei a porta, que deslizou, se abrindo.
De lá de dentro pulou o Chicão, sacudindo o couro e miando meio indignado. Felizmente, nesse caso, era só um polter-gato, com o perdão do trocadilho.
Na mesma época, a avó do meu ex-marido tinha falecido. Não pudemos ir ao velório, mas algum tempo depois fomos visitar seus pais e recebemos como herança um relógio antigo de madeira, com pêndulos, daqueles que tocam a cada quinze minutos e marcam as horas com badaladas. Para que o relógio aguentasse as quase 9 horas balançando dentro do carro na viagem de volta, amarramos os bastões e o embalamos tudo muito bem. Ao chegar em casa, ele foi devidamente colocado na parede e seus pêndulos, soltos. Tínhamos chegado perto das 17h horas. Quando fomos dormir, já eram 22h e nada de o relógio badalar. Imaginamos que, apesar do cuidado, algo poderia ter se danificado durante a viagem. Eu até achei bom porque ninguém ia aguentar aquele negócio tocando o tempo todo.
E então, à meia-noite, doze badaladas romperam o silêncio.
Acordamos sobressaltados e pulamos da cama. Ficamos os dois de pé na frente da caixa de madeira tentando entender o que estava acontecendo. Foi então que eu olhei pra ele e dei o veredicto: “Olha aí, sua vó veio visitar a gente”. Rimos de nervoso e ele desconectou os bastões que jamais foram recolocados no lugar. Ainda bem que as badaladas nunca mais aconteceram. Até porque, se o relógio tivesse tocado sem os bastões, com certeza eu teria tacado fogo nele.
Será que se tratava do mesmo fenômeno – um poltergeist – ou será que era o fantasma da vó que tinha vindo dar oi?
De qualquer forma, nem é necessário acontecer alguma coisa pra que a gente fique em situação de alerta. Nosso cérebro é capaz de criar os cenários mais terríveis e colocar nosso corpo em estado de luta ou fuga mesmo quando não há ameaça real. Dizem que, na verdade, nosso medo é do desconhecido. Mas será que se eu descobrisse que se trata de um fantasma vivendo no meu guarda-roupa, eu teria menos medo? Acho que nessa situação, mesmo que não fosse algo imaterial, se pulasse um gato de lá de dentro meu susto seria mil vezes maior: afinal, eu não tenho um gato.
Stephen King disse em algum lugar, talvez no livro Sobre a escrita (2015), que apesar de seus livros tratarem do sobrenatural, como o palhaço It, o horror, o verdadeiro horror, está no mundo material: frequentemente, são personagens humanos que fazem coisas horríveis, o que me lembra dos episódios de Scooby Doo, em que eles sempre descobrem que o monstro é uma pessoa. Algo que também acontece no conto “A enforcada”, do meu livro Retratos de Mulher (2025).
Minutos depois, meu marido saiu do banho e foi pegar uma roupa pra vestir. Abriu o guarda-roupa daquele jeito sem cerimônia típico de personagens de filme de terror que ainda não sabem que há um assassino à espreita, e fechou-o logo em seguida. A porta, obediente, não se mexeu nem um milímetro.
Nenhum espírito, nenhuma manifestação, nenhum gato clandestino. Parecia até que um encanto tinha se quebrado. Vai ver o fantasma do meu guarda-roupa tem medo de gente, o que eu acho até mais sensato.




Sábio guarda-roupa, eu tb tenho medo de gente
Na primeira parte já estava esperando um gato mesmo, até saber que você não tem gato ahhaha