Isto é água
Uma poça, um autor defunto e um lembrete de humanidade.
Dia desses cheguei em casa e me deparei com uma poça no corredor. Na verdade, passei por cima dela sem perceber, entretida com algo no celular ou procurando as chaves dentro da bolsa. Foi o chap-chap das sandálias molhadas que denunciou algo de errado, além de uma certa umidade nos dedos. Virei para trás e lá estava ela: estagnada, imperturbável, exceto por um leve tremular e o rastro de pegadas que me seguia. Um sinal de alerta se acendeu no fundo da minha cabeça. Lembrei da vez em que a caixa d’água do prédio transbordou depois que um raio estourou algum equipamento elétrico da bomba e o elevador virou uma cachoeira. De cima não parecia vir nada, mas não dava para ter certeza. Tirei uma foto e enviei para o síndico: Tem água no corredor do 11º andar. Não sei de onde vem. E entrei em casa.
Ao abrir a porta do apartamento, um barulho de água pingando me recebeu. Estremeci. Seria meu pior pesadelo tornando-se realidade? Imagens desconexas de pedreiros, poeira, paredes quebradas e cimento invadiram minha mente. Não não não não, era só o que eu conseguia pensar. Fui até a lavanderia, que era de onde parecia vir o barulho, rezando para que fosse só a torneira pingando. Um fio de água escorria pela parede. Na quina do teto, uma goteira. De novo as imagens. Pedreiros, cimento, pó e lágrimas (as minhas). Peguei o celular: Tem água aqui no meu apartamento também.
Quando algo assim acontece, eu sempre me pergunto qual é a mensagem ou o que eu tenho que aprender. Uma parte de mim, a mais racional (e chata), acredita que talvez seja só aquilo mesmo: uma goteira inoportuna. A outra, que lê sobre vidas extraterrestres e tira duas cartas do oráculo das deusas toda semana, tende a fazer interpretações menos casuais: água é emoção, que emoção está vazando por aqui? O que precisa ser olhado, internamente falando?
Às vezes é difícil achar explicação para as coisas que acontecem, como a vez em que derrubei meu celular dentro da privada. Mas, por mais que a vida não seja uma narrativa em que tudo é organizado segundo uma lógica interna, o que seria um dos motivos pelos quais gostamos tanto de histórias, se a gente procurar bem, sempre tem uma lição a ser extraída dali, nesse caso, não deixar o celular no bolso da calça quando for ao banheiro. E talvez seja por isso que falar de água sempre me remeta a uma aula específica da graduação.
David Foster Wallace era então um desconhecido. Em muitos aspectos continua sendo, já que não li mais nada dele a não ser seu discurso para uma turma de formandos do Kenyon College de 2005. O fato de ele ter se suicidado também chamou minha atenção – devo confessar que tenho uma quedinha por autores e autoras melancólicos, especialmente os suicidas –, mas o que ganhou meu coração foi a maneira como ele usou seu talento narrativo com histórias simples e carregadas de significado: aquelas palavras me arrebataram (imagino que não só a mim) de um jeito que só quem se emociona com literatura é capaz de entender.
Ele começa seu discurso contando uma historieta engraçada, mas cheia de sabedoria:
Há dois peixinhos nadando quando encontram um peixe mais velho nadando na direção oposta, que acena para eles e diz: “Bom dia, meninos. Como está a água?” Os dois peixinhos continuam nadando por um tempo, até que um deles olha para o outro e pergunta: “Que diabos é água?”
Segundo Wallace, a historinha não passava de uma maneira de transmitir aos formandos uma mensagem muito simples, clichê até, de que: “as realidades mais óbvias e importantes são, muitas vezes, as mais difíceis de enxergar e discutir”. Algo com que mães de crianças de 3 anos geralmente estão mais acostumadas, como minha amiga que se viu dizendo a insuperável frase “não enxugue a língua” para o filho. E esse é o cerne do discurso: assim como os peixinhos jovens não se dão conta da água em que estão imersos, nós também vivemos como autômatos cumprindo nossas tarefas sem pensar no que está à nossa volta ou no porquê de tudo isso.
No decorrer do texto, que espero realmente que vocês leiam, Wallace conta outras histórias para ilustrar um ponto específico do seu argumento: que cada um de nós se coloca como o centro do próprio universo e esquece disso. Vivemos como se a nossa verdade fosse também a verdade do outro, como se as nossas necessidades fossem mais importantes que as necessidades dos outros e tudo fosse óbvio demais para ser dito, quando na grande maioria das vezes não é.
Eu, como Wallace, não vou me colocar como o peixe sábio, porque muitas vezes tenho vontade de passar por cima do carro que está lento demais na minha frente, sem pensar que pode se tratar de um recém-habilitado, como eu mesma já fui um dia, ou que a pessoa pode estar carregando um bolo de aniversário no banco do passageiro com medo de que uma freada brusca ponha tudo a perder. Também nem sempre me dou ao trabalho de dizer o óbvio e acabo esperando que os outros (sejam lá quem forem) simplesmente adivinhem que no universo que rodeia o meu umbigo as coisas são feitas de determinada maneira.
Depois que o síndico veio ver o vazamento, explicando que a calha não tinha suportado o volume de água liberado para a limpeza da caixa, fiquei pensando em como muitas vezes a gente só sai do automático quando algo dá errado, só descansa quando fica doente, só dá valor a alguma coisa quando perde. Não fosse a poça no meio do corredor, por exemplo, talvez eu não tivesse voltado a um texto que li há mais de 10 anos e cuja lição é justamente que cada pessoa é um universo e que isso é o que traz beleza, no fim das contas.
Essa liberdade de disciplinar o olhar e o coração não ganha louros nem destaque, mas é a que verdadeiramente importa, como Wallace sublinha: “a consciência daquilo que é tão real e essencial, tão oculto à vista de todos ao nosso redor, o tempo todo, que precisamos nos lembrar disso constantemente: Isto é água.”




Hahahahahha
Me identifiquei em dobro, uma por ser a personagem ali no meio. Outra por ter acontecido a mesma coisa comigo: negação que tinha uma água escorrendo que se tornou chuva nas nossas cabeças. Mas isso no trabalho… que emoção está lá represada que estourou???
Horror horror horror... reformas, conserto, quebrar parede, cano furou, é o terror... mas tb é o que vc viu, é o que nos força a sair do automático... vamos torcer pro universo maneirar nas próximas vezes.