Fofoca? Aceito.
Dearest gentle reader...
Nos dias em que fiquei acamada reclamando da vida, pude terminar de assistir à última temporada da série queridinha dos fãs de Julia Quinn – bem numerosos, pelo que pude notar na Bienal da Bahia. É incrível como, mesmo sabendo que de alguma forma tudo seria resolvido e acabaria em casamento, eu simplesmente PRECISAVA ver até o fim. Desculpem-me os estruturalistas de plantão, mas a curiosidade definitivamente é o que move o leitor, o espectador e, por que não, o ouvinte de fofoca.
Todo mundo gosta de uma boa fofoca e, não fosse isso, a trama de Bridgerton ficaria bastante empobrecida. Num universo em que as personagens nada mais têm a fazer a não ser tomar chá, comer biscuits, ir a bailes, transar e se preocupar demasiadamente com relacionamentos, vocês hão de concordar comigo que ela é essencial. A fofoca é o motor de boa parte dos conflitos da série e o principal veículo da boca miúda é o folhetim de Lady Whistledown.
Ali, estão todas as juicy gossips da nobreza, as paixões interditas, as falsidades, as intrigas entre famílias: a vida de aparências com seus andaimes revelados.
É claro que a série faz seu papel moralizante de mostrar os resultados ignóbeis da fofoca, seja pela chateação de ter sido exposto, seja pela história ter sido contada pela metade (e que história não é?!). A personagem por trás de Lady Whistledown, ao ter sua identidade revelada publicamente, é brandamente punida com um tapinha na mão seguido de um “continue, por favor”, afinal, o folhetim era o entretenimento da rainha e ninguém quer uma rainha entediada.
De fato, esse tipo de publicação fazia sucesso na Inglaterra do século XVIII, da mesma forma que revistas como “Quem” e “Caras” tiveram seus dias áureos no Brasil do final do século XX e início do XXI. Mesmo os jornais tinham sua coluna de fofocas e vários programas de televisão se popularizaram a partir disso, como “Fofocalizando”, do SBT, e “A tarde é sua”, da RedeTV!, apresentado pela diva das intrigas familiares, Sonia Abrão. Hoje, ninguém mais vê TV aberta ou compra revista, mas a vida alheia nunca deixou de ser objeto de curiosidade, de forma que esse lugar foi ocupado pelas redes sociais.
Quem nunca stalkeou o perfil de alguém que atire a primeira pedra.
É difícil distinguir a fofoca da difamação ou mesmo da mentira. A difamação implica prejudicar a imagem de alguém seja o fato verdadeiro ou não. É considerado um crime contra a honra e está previsto no código penal brasileiro no artigo 139. Já a mentira, como todos sabem, é aquela coisinha de pernas curtas e cabeludas, meio dentuça e com cara de sonsa. A fofoca talvez fique ali no meio: certamente o alvo da fofoca não se sentiria feliz com o que contam a seu respeito e teria adendos, se não correções, a fazer na história.
De qualquer forma, me parece que a simples e pura fofoca, dessas que a gente troca numa tarde com as amigas tomando café e comendo bolo (tal como as personagens de Bridgerton, vejam só), sem intenção de ferir ou prejudicar ninguém, não precisa de imputação penal ou mesmo de acusações contra a veracidade dos fatos. Como únicos animais que narram – pelo menos até onde a gente sabe – somos envolvidos por uma necessidade incontrolável de contar histórias tão logo nos reunimos.
Parafraseando um versículo bíblico, ali onde dois ou três estiverem, estará a fofoca no meio deles.
Segundo uma pesquisa realizada pelo IVMC (Instituto Vozes da Minha Cabeça), apesar de a fama de fofoqueira sempre ter recaído sobre a mulher, homens não ficam atrás. No meio de toda a 5ª série, suas conversas são invariavelmente levadas pelo mexerico e eles chegam a fofocar até 1,5 vezes mais que suas contrapartes femininas. No entanto, como atividade considerada tipicamente de mulheres, a fofoca se tornou algo reprovável. Assim como ler romances.
Inclusive, se pararmos pra pensar, o romance nada mais seria do que uma fofoca bem escrita, uma vez que esse gênero literário, tal qual o conhecemos hoje, faz algo que já acontecia oralmente há bastante tempo: o escrutínio da vida privada. Vejamos o exemplo icônico de Dom Casmurro: uma fofoca de 200 páginas sobre um suposto caso entre Capitu e Escobar. Ou então, recentemente adaptado para o cinema, O morro dos ventos uivantes, que começa justamente com uma fofoca contada ao recém-chegado pela empregada da casa.
Em alguns casos, talvez o tom de mexerico fique mais aparente por tudo ser contado pelo próprio personagem. Mas ainda que a história não seja narrada em primeira pessoa, a leitura nos proporciona a experiência impagável de sermos uma mosquinha invisível na parede da sala observando a tudo e todos. Nesse momento, a curiosidade que nos move páginas adiante é comparável, se não a mesma, àquela que nos faz sentar na beirada da cadeira, com o garfo suspenso entre a boca e o prato enquanto alguém nos conta a história da vizinha que foi vista saindo de casa de mala e cuia, depois de passar duas semanas na casa do filho adoentado, o que, dizem, foi o motivo da briga conjugal.
Os dados da pesquisa também mostraram que, quando se trata de casais, homo ou heterossexuais, o índice de fofoca chega a aumentar 10 vezes (margem de erro de 3 pontos percentuais para mais ou para menos) – para as duas partes – porque, nesse caso, além de ouvir a fofoca, há que a repetir tintim por tintim para o respectivo cônjuge o mais rápido possível.
Meu digníssimo, corroborando os dados da pesquisa, ao chegar em casa, com mais um mexerico quentíssimo, mal tira os sapatos antes de começar:
- Amor, você não vai acreditar!
E então, depois de contar a coisa mais cabeluda que vocês possam imaginar, ele ri da minha cara (não no sentido figurado) dizendo:
- Ainda vou te filmar fazendo essa cara!
Dia desses, à noitinha, eu estava sentadinha de pijama no sofá, mexendo no celular quando ele parou atrás da bancada da cozinha e começou:
- Amor, você não vai acreditar!
Diante de um início assim eu sabia que lá vinha pedrada, mas resolvi aguardar.
- Você lembra da história do Valentim ter pedido demissão do emprego lá no Lava Car do tio Nequinho? – Ele continuou.
- Uhum. – Respondi, e rolei a tela mais um pouco.
- Então, eu fiquei sabendo o porquê. O Valentim descobriu que o tio Nequinho é tipo porco, assim. - Fez uma pausa dramática antes de prosseguir: - Disse que ele passa o p... – E contou os detalhes enquanto, bem, eu fazia a cara que sempre faço quando me contam uma fofoca estapafúrdia.
Imagino que, ao saber do potencial dessa fofoca, ele deva ter se preparado psicologicamente para, com muita discrição, registrar as minhas caras e bocas, o que, para mim mostra a frieza de alguém capaz de fazer qualquer coisa, como, sei lá, colocar a roupa suja dobrada dentro da máquina de lavar. Eu até estranhei ele segurando o celular na posição vertical em frente ao umbigo enquanto narrava a história, mas não achei que ele estava de fato filmando.
Quando me mostrou a gravação, entendi o motivo de ele sempre rir da cara que eu faço:
Agora, sempre que ele começa com um “amor, você não vai acreditar”, eu já me ajeito no sofá. Não sei se pra ouvir a fofoca ou pra sair bem no vídeo.




Meu avô e meu pai eram extremamente fofoqueiros. Eu nem gosto tanto, mas quando a pessoa chega pra mim dizendo: “não conta pra ninguém” eu já digo pra falar a frase de novo e se escutar,
E, quer saber? Se a fofoca é uma coisa boa, que deixa muita gente feliz, ela é pra ser espalhada mesmo, como por exemplo a parenta que largou o marido abusivo e purgante pra viver com outro! (Xi, será que contei? F*d@-s3
Amei tua cara!!! Literalmente aqui.